Principais efeitos esperados da testosterona
- Caracteres sexuais secundários:
- Crescimento de pelos faciais e corporais.
- Alopecia androgênica (queda de cabelo com padrão masculino).
- Aumento de oleosidade da pele e acne.
- Crescimento da cartilagem tireoide (“pomo de Adão”).
- Mudança do timbre vocal (mais grave).
- Aumento da massa muscular e força.
- Redistribuição de gordura corporal (mais abdominal, menos glútea/quadril).
- Efeitos sobre órgãos genitais e ginecológicos:
- Hipertrofia do clitóris.
- Atrofia vaginal.
- Cessação da menstruação (nem sempre completa, pode haver ovulações residuais).
- Alteração da libido (geralmente aumento).
- Fertilidade:
- Redução da fertilidade por anovulação, mas ovulações ainda podem ocorrer.
Observações ginecológicas importantes
- Dores pélvicas não esperadas devem ser investigadas (dismenorreia, endometriose, infecções, massas, aderências, gravidez ectópica, problemas musculares ou gastrointestinais).
- Sangramentos uterinos após 6 meses de testosterona são anormais e devem ser avaliados (classificação FIGO PALM-COEIN).
- Vaginite atrófica (ressecamento e desconforto vaginal) pode ser manejada com lubrificação ou estrógenos vaginais de baixa absorção sistêmica.
- Corrimentos atípicos devem ser investigados para infecções sexualmente transmissíveis.
- Hipersensibilidade clitoriana pode ocorrer devido à hipertrofia da glande.
- Ambiente acolhedor e exames ginecológicos adequados aumentam conforto e vínculo com o serviço.
Riscos e efeitos adversos
- Alterações emocionais e de comportamento: podem ser positivas (mais energia) ou negativas (irritabilidade, ansiedade).
- Perfil lipídico: aumento de LDL e redução de HDL, mas sem aumento comprovado de eventos cardiovasculares.
- Hepatotoxicidade: não observada em formulações bioidênticas não orais, apenas em testosterona sintética oral.
Contraindicações
Absolutas:
- Hipersensibilidade à formulação.
- Gravidez ou amamentação.
- Doença cardiovascular isquêmica instável.
- Câncer sensível à testosterona ativo.
- Câncer de endométrio ativo.
- Psicose mal controlada ou condições psiquiátricas que impeçam consentimento informado.
- Irritabilidade extrema com ideação homicida.
Relativas (avaliadas individualmente):
- Doença cardiovascular estável.
- HAS ou DM descompensados.
- Dislipidemia descompensada.
- Disfunção hepática.
- Policitemia.
- Histórico de TVP ou coagulopatia.
- Doença respiratória crônica (agravada por policitemia).
- Apneia do sono severa/descompensada.
- Epilepsia sensível a andrógenos.
- Tabagismo.
- Migrânea.
- Sangramentos intermenstruais, oligomenorreia ou amenorreia.
Prescrição de testosterona
- Classificação legal: Substância anabolizante (RDC nº 98/2000).
- Controle legal: Lei nº 9.965/2000 e Portaria MS nº 344/1998.
- Requisitos da receita:
- Emitida em duas vias.
- Contém endereço do usuário.
- Código CID:
- CID-10: F64.0
- CID-11 (a partir de 2022): Capítulo 17
- CPF da médica prescrita.
- Quantidade máxima: 5 ampolas ou equivalente a 60 dias de hormonização.
- Riscos da automedicação:
- Uso de produtos de procedência duvidosa (anabolizantes veterinários ou industrializados).
- Aplicação com técnicas inseguras e posologia inadequada.
Acompanhamento de hormonização com testosterona
Abordagem integral
- Criar espaço para a pessoa expressar percepções sobre o corpo, crenças sobre hormônios, vivência social e sentimentos.
Investigações clínicas
- Avaliar alterações de humor relacionadas à testosterona.
- Observar mudanças na libido e nos orgasmos.
Exame físico (em cada consulta)
- Peso corporal.
- Acne, oleosidade e ressecamento de pele.
- Pilificação (quantidade e distribuição) e alopecia.
- Musculatura visível e distribuição de gordura corporal.
- Circunferências: tórax, abdome, quadril, coxa.
- Genitália:
- Hipertrofia do clitóris (medidas longitudinais e transversais).
- Atrofia vaginal/vulvar.
- Menstruação, dor, sangramentos.
- Descarga mamária.
- Alterações vocais (pitch da voz).
Exames laboratoriais
- Medida basal antes do início da hormonização.
- Exames periódicos conforme necessidade individual (Quadro 12).
- Observações:
- Níveis séricos de testosterona não devem ser únicos parâmetros para ajuste de dose.
- Valores flexibilizados de acordo com tempo de hormonização, gonadectomia e idade.
Exames complementares para pessoas adultas em hormonização
Solicitação de exames
- Inicialmente, exames solicitados por médicas; futuramente, enfermeiras podem solicitar.
- Exames de rotina estão listados em:
- Pessoas transfemininas (estrógenos/antiandrógenos).
- Pessoas transmasculinas (andrógenos).
Exames não rotineiros
- Ultrassonografia mamária: suspeita de neoplasia ou ruptura de implante.
- Ultrassonografia pélvica: alterações anatômicas, miomas, SOP, neoplasia endometrial/ovariana.
- Ultrassonografia de abdome superior: suspeita de lesão hepática ou litíase biliar.
- Ultrassonografia de próstata, PSA ou toque prostático: sintomas de prostatismo.
- Coagulograma, proteína C e S: suspeita de trombofilia, histórico pessoal ou familiar de tromboses atípicas.
- Densitometria óssea: alterações patológicas da densidade mineral óssea, fraturas por fragilidade, uso prolongado de glicocorticoides, hipogonadismo sem reposição.
- Ressonância magnética de implantes mamários: se ultrassom indicar suspeita de ruptura.