1. Contextualização e Princípios da Hormonização Afirmativa
A hormonização para pessoas trans e demais identidades de gênero transcende a lógica biomédica tradicional de tratamento de patologias, configurando-se como uma tecnologia fundamental de afirmação de gênero e promoção da saúde integral e do exercício da dignidade humana.
- Despatologização (CID-10 para CID-11): Vivemos uma transição paradigmática fundamental. Este paradigma acompanha a evolução nosológica da CID-10 (F64.0 – Transexualismo) para a CID-11 (HA60, HA61, HA6Z – Incongruência de Gênero), cuja implementação obrigatória está prevista para janeiro de 2027. Essa mudança realoca a vivência trans no capítulo de condições relacionadas à saúde sexual, afastando-a definitivamente do espectro dos transtornos mentais.
- Marco Regulatório: O cuidado é respaldado pela Portaria GM/MS nº 2.836/2011 (PNSILGBT), Portaria MS nº 2.803/2013 e Resolução CFM nº 2.427/2025, que respeita a idade mínima de 18 anos para início do tratamento hormonal em adultos.
- O Projeto Terapêutico Singular (PTS): A despatologização e o respeito à autodeterminação são os pilares da aliança terapêutica no SUS. O cuidado deve ser estruturado através do PTS, uma ferramenta de gestão do cuidado construída entre a equipe multiprofissional e a pessoa.
2. Critérios de Elegibilidade, Admissão e Contraindicações
A identificação de contraindicações não é exclusão, mas proteção à vida.
- Critérios de Inclusão: Idade ≥ 18 anos; incongruência de gênero marcante e persistente; desejo manifesto, expresso e livre (consentimento informado).
- Contraindicações Absolutas: Hipersensibilidade à formulação; Gravidez ou amamentação; Cânceres hormônio-sensíveis ativos; Doença cardiovascular isquêmica instável; Condições psiquiátricas graves não controladas; Tentativa de suicídio recente (< 30 dias); Insuficiência hepática grave.
- Contraindicações Relativas (Exigem Estabilização): HAS/DM descompensados; dislipidemia severa; policitemia (Hematócrito > 50%); histórico de TVP; apneia do sono severa; tabagismo.
3. Prescrição Legal, Farmacologia e Esquemas Terapêuticos
A testosterona é classificada como Substância Anabolizante e sujeita a controle especial legal (Substância C5).
Requisitos da Receita: Duas vias; CID obrigatório; CPF do prescritor; Quantidade máxima para 60 dias. É obrigatório o Termo de Esclarecimento e Responsabilidade (TCLE/TER) preenchido em 3 vias.
Manejo Farmacológico (Terapia Androgênica)
- Fase de Início (0-2 anos): Cipionato de Testosterona (200 mg IM a cada 2-4 semanas).
- Fase de Manutenção: Undecilato de Testosterona (1.000 mg IM a cada 10-14 semanas).
4. Transformações nos Caracteres Sexuais Secundários e Cronologia
| Efeito Clínico Esperado | Início Estimado | Efeito Máximo | Reversibilidade |
|---|---|---|---|
| Oleosidade da pele e acne | 1 – 6 meses | 1 – 2 anos | Reversível |
| Cessação da menstruação | 1 – 6 meses | Variável | Reversível |
| Clitoromegalia (hipertrofia) | 1 – 6 meses | 1 – 2 anos | Irreversível |
| Redistribuição de gordura | 1 – 6 meses | 2 – 5 anos | Reversível |
| Crescimento de pelos faciais | 6 – 12 meses | 4 – 5 anos | Irreversível |
| Engrossamento da voz | 6 – 12 meses | 1 – 2 anos | Irreversível |
| Aumento de massa muscular | 6 – 12 meses | 2 – 5 anos | Reversível |
| Alopecia androgênica | 6 – 12 meses | Variável | Permanente |
5. Impactos nos Sistemas Genitais e Fertilidade
- Atrofia Vaginal/Vulvar: Pode ser manejada com lubrificação ou estrógenos vaginais tópicos (não interferem na masculinização sistêmica).
- Gestão de Sangramentos: Sangramentos após 6 meses de testosterona devem ser investigados (PALM-COEIN).
- Fertilidade: A testosterona induz anovulação, mas não é método contraceptivo. Riscos teratogênicos graves no feto caso ocorra gravidez. Recomendado o uso de DIU de Cobre.
6. Acompanhamento, Avaliação Clínica e Exame Físico
Realizar em cada consulta: Peso corporal, Pressão Arterial, acne, distribuição de pelos, palpação hepática e avaliação genitália (clitoromegalia, atrofia, sangramentos).
7. Monitoramento Laboratorial e Exames Complementares
| Exame | Basal | Mês 3 | Mês 6 | Anual | Alvo / Vigilância |
|---|---|---|---|---|---|
| Hemograma (Hct) | X | X | X | X | Hct < 50% |
| Testosterona Total | X | X | X | X | 400 - 700 ng/dl |
| Função Hepática | X | X | - | X | AST/ALT < 3x LSN |
| Glicemia/Lipidograma | X | - | X | X | Risco Cardiovascular |
8. Avaliação Sistêmica de Riscos e Interrupção
- Eritrocitose (Alto Risco): Complicação maior; Hct > 54% exige interrupção ou sangria.
- Hepatotoxicidade: Suspensão se transaminases > 3x o limite superior.
- Critérios de Suspensão: Risco clínico inaceitável; não adesão ao monitoramento por > 12 meses; desejo espontâneo.